É comum alguns críticos do uso de referências bíblicas para justificar a condenação do cristianismo à homossexualidade; impugnarem a citação de Levítico, sob a alegação de que ela seria arbitrária e tendenciosa. Segundo estes críticos, a proibição do homossexualismo em Levítico é apenas uma das ordenanças deste livro e se a sua observância ainda for devida em nossos dias, é necessário também cumprir as demais ordenanças, que incluem práticas cerimoniais e culturais. Este é mais um exemplo de crítica infundada de textos bíblicos, lidos superficialmente e sem o cuidado de investigar o seu contexto sociocultural e espiritual.
Deus deu ao homem alguns mandamentos que são eternos e incondicionais, independentes de qualquer época ou cultura. Mas Deus deu também alguns mandamentos a determinados indivíduos ou grupos, sem propósito, entretanto de que se aplicassem a todas as pessoas, em todos os lugares. Exemplos óbvios são: o mandamento para Noé construir a arca, o mandamento a Abraão para sacrificar seu filho e o mandamento a Abraão e seus descendentes para circuncidar todos os homens (Romanos 3:19). Deus deu ainda alguns mandamentos para servir a um propósito temporário. Exemplos disto são o sacerdócio levítico, o sacrifício de animais e a circuncisão.
Durante a saída do povo hebreu do Egito, Moisés designou à tribo de Levi a atribuição de atuar como sacerdotes para o povo de Israel (Êxodo 32,29); e o livro do Levítico contém um “código de conduta” para estes sacerdotes, chamados Levitas. Além disso, o propósito dos preceitos do Levítico era tornar o povo hebreu um povo santo; isto é, separado e distinto dos povos ao seu redor. Assim, o núcleo do livro é que os judeus chamam de Lei de Santidade. Assim Deus se dirige a Moisés:
"Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo." (Levítico 19:2)
E aos sacerdotes levitas:
“Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da revelação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso pelas vossas gerações, não somente para fazer separação entre o santo e o profano, e entre o imundo e o limpo, mas também para ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos que o Senhor lhes tem dado por intermédio de Moisés.” (10:9-11)
Alguns dos preceitos de Levítico eram de natureza higiênica, outros de natureza cerimonial e outros ainda de natureza simplesmente cultural, que visavam apenas distinguir os hábitos do povo hebreu dos hábitos dos demais povos.
Entretanto, muitos dos preceitos de Levítico são de natureza moral e espiritual, como nos capítulos 19 (Versos 4, 11-18 e 35-36), 20 e 26. As penas previstas para a violação destes preceitos eram bastante severas para os padrões atuais. Mas isso era necessário devido à condição de brutalidade e barbárie em que viviam os antigos hebreus. Naquela época, as mulheres eram tratadas como mercadoria e havia também escravidão, mesmo entre os próprios judeus. Muitos judeus ofereciam seus próprios filhos como sacrifício ao deus pagão Moloque, praticavam zoofilia e mantinham relações sexuais incestuosas.
Quando Jesus veio ao mundo, o povo judeu já havia alcançado um certo grau de evolução social e espiritual, por isso Deus pôde ensinar a eles um novo conceito de santidade e de justiça, através do Evangelho. Dessa forma, os antigos preceitos levíticos de natureza cerimonial ou cultural não faziam mais sentido; e foram mantidos na Nova Aliança apenas os preceitos de natureza moral, que são eternos.
Mesmo assim, a punição religiosa pela violação destes preceitos deixou de existir. Cada indivíduo passou a ser responsável por seus próprios atos perante Deus, sem necessidade da intermediação de sacerdotes ou de sacrifícios de animais e oferendas. Por outro lado, cada indivíduo passou a responder pelas consequências de seus pecados perante Deus e, quando cabível, submeter-se às penalidades previstas na justiça humana.
Essa é a razão pela qual alguns dos preceitos de Levítico ainda são universalmente válidos; ou seja, os preceitos de natureza moral e espiritual acima mencionados, enquanto outros perderam o sentido, como aqueles de natureza cerimonial (práticas sacerdotais, rituais de oferendas e sacrifícios animais) e sociocultural (circuncisão, proibição de certos alimentos, aparência física e vestimentas, escravidão) e até mesmo higiênicas (rituais relativos ao tratamento dos leprosos e ao fluxo menstrual).
Paulo ensina a superioridade da Nova Aliança em Cristo sobre a antiga Lei, em sua carta aos colossenses:
"Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de algum modo nos era contrária, e a tirou no meio de nós, cravando-a na cruz... Portanto ninguém vos julgue pelo comer ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da Lua Nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é Cristo." (2:14, 16 e 17)
Não há uma distinção bíblica entre leis morais e cerimoniais, mas Jesus torna mostra claramente que o Novo Concerto que Ele veio firmar entre Deus e os homens, diz respeito aos princípios morais da Lei (Mateus 19:17-19; 22:36-40). Jesus não aboliu a Lei mosaica, mas a substituiu por princípios espiritualmente superiores, segundo a Graça de Deus.
Ainda assim, algumas das ordenanças de Levítico ainda podem parecer cruéis, mesmo considerando o caráter de absoluta brutalidade e barbárie na qual viviam os povos daquela época. Este é o caso, por exemplo, da aparente recomendação divina da escravidão (25:44-46) e também a condenação à morte pela não observância do sabbath (31:15).
Deus deu aos judeus o direito de manter escravos de outras nações por dois motivos. Primeiro, a escravidão era algo absolutamente comum naquele tempo, ninguém via isso como crueldade, mas como algo natural. Segundo, Deus queria mostrar também aos outros povos que o Deus de Israel era o único Deus verdadeiro, por isso Deus dava aos judeus vitória contra muitos povos muito mais poderosos que tentavam dominá-los.
Ao estudar a história de Israel, percebe-se que é um milagre o fato de aquele povo haver sobrevivido até hoje a tantas invasões e ao domínio de outras nações muito maiores e mais fortes. Isso não quer dizer que Deus ama apenas os judeus; mas que quis mostrar ao mundo através deles que Ele é o único Deus verdadeiro.
Não significa também que Deus aprovava a escravidão, tanto é que Ele não permitia que houvesse escravidão entre os judeus, conforme Levíticos 25:35-41:
"E, quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos dar a terra de Canaã, para ser vosso Deus”.
“Quando também teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo.”
“Como diarista, como peregrino estará contigo; até ao ano do jubileu te servirá; então sairá do teu serviço, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família e à possessão de seus pais."
Foi um cristão protestante, William Wilberforce, quem lutou para que a Inglaterra abolisse a escravidão em seu império, em 1807.
Com relação ao sábado, a pena para o descumprimento das ordenanças em geral era realmente muito rigorosa, mas acredito que, se elas não o fossem; ninguém as cumpriria, devido à natureza bruta do povo. Com a instituição do sábado, creio que Deus queria apenas lembrar ao homem a necessidade dele buscar a comunhão com o seu Criador.
Colocado dessa forma, como uma ordenança, foi como uma imposição, mas entendo que através dela Deus estava preparando o caminho para a libertação de toda a humanidade da escravidão do pecado. Essa imposição foi também temporária, pois quando Jesus veio, mostrou aos judeus que o mais importante não era a guarda do sábado em si, mas amar a Deus e às outras pessoas:
"Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor.
E, estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para o acusarem, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos sábados?
E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que tendo uma ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não lançará mão dela, e a levantará?
Pois, quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por consequência, lícito fazer bem nos sábados." (Mateus 12:7-12)
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Levítico
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