O homem que se converte aos caminhos do Senhor passa a viver não mais segundo os ditames da carne, mas segundo a Palavra de Deus. Isso não significa entretanto, que ele abandona imediatamente a sua natureza carnal, pois ainda é humano, mas que agora orienta a sua vida segundo os princípios espirituais do Reino de Deus.
A vida espiritual contrasta radicalmente com a vida carnal, o que é possível notar no cotidiano daqueles que vivem segundo cada um destes modos de vida. A diferença fundamental entretanto está no fato de que a vontade daqueles que vivem segundo a carne, é regida pelo seu próprio eu e a vontade daqueles que vivem segundo o espírito é regida pelo Espírito de Deus que habita em seu íntimo.
Esta diferença fundamental pode ser notada através de algumas características de atitude e comportamento, que relaciono a seguir:
a) No homem carnal, o estado de espírito é determinado pelas circunstâncias. Bons estímulos alegram e entusiasmam; maus estímulos entristecem e abatem; ou seja, possuem ânimo inconstante. Já no homem espiritual, o estado de espírito é fundamentado na fé. Bons e maus estímulos não causam impacto profundo. Ele sente alegria nas vitórias, dor nas lutas e provações, mas tem sempre bom ânimo diante de todas as circunstâncias.
b) A orientação de vida do homem carnal é baseada na sua própria sabedoria ou na sabedoria humana em geral. Seus propósitos são estabelecidos conforme sua própria vontade. A orientação de vida do homem espiritual, por outro lado, é baseada na sabedoria divina. Seus propósitos são estabelecidos conforme a vontade de Deus.
c) A segurança do homem carnal está calcada em seus bens e posição. Ele tem uma profunda dependência de bens materiais e posição social para se sentir seguro. O homem espiritual entretanto, tem sua segurança baseada na certeza da salvação. Ele se coloca sob total dependência da providência divina e da fidelidade do Pai.
d) A autoestima do homem carnal é frágil, pois depende da valorização alheia e de suas realizações pessoais. Está assim sob constante risco de se desestruturar psicologicamente, caso perca sua autoestima. A autoestima do homem espiritual porém, é inabalável, pois provem do amor de Deus por ele e da integridade de sua consciência.
e) Os valores do homem carnal são voláteis, suas opiniões mudam constantemente e são muitas vezes incoerentes. Dependem essencialmente do conhecimento e da sabedoria humanas. Os valores do cristão entretanto são sólidos, as suas opiniões são firmes, claras e coerentes, pois se baseiam na Palavra de Deus.
f) A identidade do homem carnal é baseada em pessoas, na sua realização profissional ou em sua vida familiar. Pode entrar em crise portanto, caso a sua referência de identidade seja abalada ou perdida. A identidade do homem espiritual entretanto é inabalável, pois surgiu do seu renascimento em Cristo, e está fundamentada apenas nele.
g) No homem carnal há uma profunda dependência dos sentidos físicos. O seu bem estar depende de uma vida sexual gratificante, do uso de drogas, lícitas ou não, e de estímulos emocionais. O bem estar do homem espiritual, embora também influenciado pelas emoções, depende apenas da paz e do gozo espiritual proporcionados pela sua comunhão com Deus.
h) O homem carnal é geralmente competitivo, vendo o seu semelhante como seu concorrente, aliado ou adversário. Normalmente se mostra intolerante para com a opinião e o direito alheios. Embora seja solidário quando necessário, despreza os marginalizados e busca sobretudo o seu sucesso pessoal. O homem espiritual é compassivo, vê o seu semelhante como um irmão em Cristo em potencial. É tolerante para com as diferenças de atitudes e opiniões e se importa com os espiritualmente perdidos e os necessitados. Busca acima de tudo servir o seu semelhante.
i) A conduta daqueles que vivem segundo a carne é frequentemente marcada pela prostituição, pela lascívia, pela idolatria, pela feitiçaria, por brigas e disputas intermináveis, pelo ciúme, pela ira, pelo individualismo, pela cobiça, pela inveja, pela gula e pela embriaguez. Já a conduta daqueles que vivem segundo o Espírito, é marcada pela prevalência do amor incondicional, da alegria de alma, da paz de espírito, da tolerância, da benignidade, da bondade, da fidelidade, da mansidão e do domínio próprio.(Gálatas 5)
j) O homem espiritual está existencialmente limitado pela incerteza da vida e pela inevitabilidade da morte, enquanto que o horizonte existencial do homem espiritual é ilimitado, conforme a certeza do seu destino e a eternidade de sua bem-aventurança.
k) O homem carnal normalmente vive ansioso, preocupado e com medo. Desperdiça tempo e dinheiro com coisas supérfluas. O homem espiritual no entanto, sabe que Cristo é o seu Pastor e que nada lhe faltará. Dedica o máximo tempo possível à sua comunhão com Deus e com o serviço ao seu semelhante, empregando seu dinheiro apenas naquilo que é essencial.
l) A autoconfiança do homem carnal se baseia em sua própria força e capacidade, mas a autoconfiança do homem espiritual está baseada no poder de Deus.
m) O homem carnal faz o bem às vezes por interesse pessoal, às vezes desinteressadamente, mas sempre em pecado e por esse motivo, as suas obras não têm valor para Deus.(Mateus 7:21-23) O homem espiritual faz o bem por que sua natureza tornou-se realmente piedosa e Deus se agrada de suas obras.
Poucos cristãos entretanto, podem afirmar que vivem a plenitude de uma vida espiritual. Normalmente, crescemos na formação de um caráter semelhante ao caráter de Cristo, mas somente depois que deixarmos esse mundo se completará a formação desse caráter.
Nesse meio tempo, vivemos o que normalmente é conhecido como uma vida religiosa. Ela é caracterizada por uma conduta que mescla influências carnais e espirituais. Embora tendo renascido espiritualmente e sendo, em seu íntimo, uma nova criatura, o cristão ainda convive com sua natureza anterior, com todos os seus vícios e fraquezas.
Ao receber em seu íntimo a presença do Espírito Santo, o homem natural já não é mais o mesmo ser. Surge nele um novo eu, uma nova natureza, por assim dizer, que é contrária aos antigos valores, hábitos e atitudes antes praticados. Surge daí um conflito íntimo, que Paulo descreve como uma verdadeira luta, entre carne e espírito. (Gálatas 5:17; Romanos 8:1-15)
Enquanto amadurece em sua comunhão com Deus, é normal portanto que o cristão viva uma vida religiosa, marcada exteriormente por um comportamento que procura ser condizente com a sua filiação a uma igreja, mas que intimamente ainda não possui a solidez de fé e a fidelidade a Deus necessárias a uma verdadeira vida espiritual.
O risco entretanto, é o de o cristão se acomodar a esta vida religiosa, vivendo eternamente uma dupla identidade, que alterna comportamentos carnais e espirituais, mas que não chega jamais a assumir sua verdadeira identidade espiritual.
Deus somente poderá consolidar em nosso íntimo a verdadeira natureza espiritual se puder ver, em nosso coração, a determinação sincera de abandonar a vida carnal. Essa determinação é manifesta quando praticamos, com convicção e persistência, os ensinamentos de Cristo. Somente então Ele pode concluir em nosso ser a sua obra redentora e regeneradora, que nos qualificará para viver em seu Reino.
Infelizmente, muitos são os que vivem essa vida religiosa eterna, os que não se decidem a quem realmente desejam servir, se a si mesmos ou a Deus. Esses são os que Cristo chama de mornos, em sua carta à igreja de Laodicéia. (Apocalipse 3:14-19)
São cristãos temerários, que constroem a sua casa espiritual sobre a terra, sem o alicerce firme da obediência à Palavra de Deus. Quando sobrevêm a eles as lutas e as provações, a sua fé é abalada e pode até mesmo vir a desmoronar, como as frágeis paredes dessa casa.
Não há mais tempo para hesitação entre viver uma vida carnal e uma vida espiritual, conforme disse Jesus:
Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, salvá-la-á.Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? Ou que daria o homem em troca da sua vida? Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também dele se envergonhará o Filho do homem quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.
Marcos 8:34-38
Não nos enganemos. Viver uma verdadeira vida espiritual somente é possível para aqueles que construíram suas casas espirituais sobre a rocha. Aqueles que assumiram plenamente a sua identidade como filhos do Altíssimo e que praticam efetivamente o que aprenderam de Cristo.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Vida Carnal, Vida Espiritual e Vida Religiosa
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