Lembro-me de quanto me eram preciosas, quando criança, as guloseimas com que meu pai nos presenteava, quando verificava que nosso dever de casa estava pronto e que havíamos nos comportado bem durante o dia. Quando adulto, descobri que precisava, para continuar vivendo, destas mesmas guloseimas, sob a forma agora de coisas capazes de proporcionar prazer ao meu corpo ou de empolgar a minha mente de alguma forma.
É surpreendente perceber como as pessoas em nossa cultura pós-moderna reconstroem o mundo, de modo a faze-lo parecer um lugar maravilhoso, depois de inteiramente despido de sua dimensão metafísica. Isso me faz lembrar da alegoria da caverna, que Platão usou para representar o abismo existente entre o real e o imaginário. O mundo do nosso tempo é uma caverna pós-moderna, que a ciência, a tecnologia e arte se encarregaram de iluminar, de modo a nos convencer que não existe vida fora dela. A ciência e a filosofia limitaram a possibilidade do conhecimento humano à linha de horizonte que separa a vida e a morte. Dessa forma, ao se perceber encerrado em um universo que foi contido nas estreitas fronteiras do imanente, o indivíduo se vê de súbito tomado por uma angústia inexplicável, que é uma mistura de solidão, de inquietude e de incerteza.
Incapaz de aceitar a idéia de viver na dependência do poder e da vontade soberana de Deus, ele declarou sua própria liberdade, por não suportar a sensação aterradora de viver continuamente sob o olhar do Criador. O homem pós-moderno, depois de haver saído por alguns instantes da sua caverna, não suportou a luz exterior e voltou para dentro, para a familiar solidão do seu próprio eu.
Livre das amarras da religião, mas dominado pelo desespero de se ver outra vez só no mundo, precisa então reinventar a si mesmo e também a forma de se relacionar com o mundo, para que não venha a sucumbir sob o peso dessa angústia.
Nesta tarefa, ele recorre então a todas as possibilidades que a razão pode lhe proporcionar e lança sobre a natureza um olhar perscrutador insaciável. Debruça-se sobre a vida cotidiana e busca tentar compreender ou simplesmente contemplar tudo aquilo que desperta a sua atenção, tudo que o perturba, intriga ou simplesmente o diverte.
Ao mergulhar assim com corpo e alma no mundo que o cerca, sugando incansavelmente cada sensação, cada informação, explorando novas formas e novos sentidos, o homem pós-moderno conquista para si um certo conforto existencial, algo capaz de dar a ele um sentido, ainda que provisório, para a sua própria vida. Isso proporciona uma sensação de liberdade e de ausência de limites, que reconforta a alma.
As pessoas se lançam então a explorar, ad nauseam, as mais ínfimas fibras que constituem o seu corpo e a sua mente. Os cientistas mergulham no íntimo dos átomos e ao mesmo tempo tentam enxergar além da infinitude do cosmos. Mas essa inquietação toda não esconde o real objetivo dessa busca, que é o de encontrar o seu lugar nessa ordem, ou nessa aparente desordem. Em outras palavras, esse objetivo nada mais é que o de encontrar a felicidade.
A verdadeira felicidade entretanto não é algo que pode estar contido no imanente, pois embora pareça aos sentidos não ter limites, o universo está limitado à sua própria ordem, ou seja, à sua condição física, transitória e descontínua. Todo ser humano possui em seu íntimo um impulso ontológico de transcender essa realidade, por mais que tente nega-lo ou disfarça-lo através da arte, do hedonismo ou mesmo através de ideais éticos.
Este impulso provém da consciência da existência de Deus que está inculcada no âmago do meu ser e é ela que proporciona o verdadeiro sentido para minha existência e para a minha vida. Mas essa busca de Deus não é a mesma coisa que a assimilação de um conceito religioso.
Conforme percebeu Kierkegaard, o homem é a síntese perfeita do finito e do infinito, do que tem medida e do que é incomensurável. Entretanto, essa síntese somente pode se realizar em Deus. Se, em sua angústia existencial o homem se perde em si mesmo, ele aborta a sua realização pela negação de Deus. Se ele, por outro lado, ansiando pela transcendência, renuncia à sua humanidade e se recusa a se relacionar com a realidade natural, ele se perde de seu eu e aborta sua realização pela negação de si mesmo.
O conceito religioso de Deus é como um símbolo que aponta para um significado real, mas que só é possível conhecer através de uma jornada também angustiante e reveladora, mas em sentido oposto ao da busca de si mesmo. Paradoxalmente, eu somente posso me encontrar verdadeiramente quando me lanço para fora de mim mesmo e entrego o todo o meu ser ao amor do Pai, em cujas mãos eu fui criado. Isto não é o mesmo que negar a si mesmo, no sentido existencial ou metafísico, mas consiste em abrir mão da vontade do meu eu, para que a perfeita vontade do Pai se revele através da minha própria vontade.
Voltaire reconhecia o desconforto da incerteza, mas afirmava que esse desconforto era preferível ao absurdo da certeza. Do ponto de vista estritamente científico ou filosófico, ele tinha razão. Entretanto, a fé é uma forma de conhecimento suprarracional, por que transcende os limites da realidade natural estabelecidos pela razão. A fé é o conhecimento transmitido por Deus ao homem que está em comunhão espiritual com ele e proporciona a certeza inabalável daquilo que ainda não pode ser percebido pelos sentidos ou discernido pela razão.
A fé portanto é essencialmente distinta da crença, com a qual muitas vezes é confundida, no sentido em que esta é fruto de uma convicção subjetiva, individual ou coletiva, mas que nem sempre é verdadeira. Essa fé, dada por Deus, é a única via pela qual é possível ao homem transpor o abismo existente entre a sua natureza humana, finita e corrupta e a sua natureza espiritual, infinita e perfeita, que é a realização de sua síntese existencial em Deus.
É somente quando perco o medo de abandonar a caverna do meu ser e me expor à luz e decido com intrepidez transpor o abismo que me separa da verdadeira vida, através do meu encontro com Deus, que posso encontrar a verdadeira felicidade. Quando encontro a Deus e passo a viver em consonância com a sua vontade e Ele passa a viver em meu íntimo, posso então compartilhar de sua mesa e a me deleitar com maravilhosas iguarias. A partir de então não preciso mais me contentar com as guloseimas materiais que me ajudam apenas a esperar a morte.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
A Caverna Pós-Moderna
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