sábado, 18 de junho de 2011

A Marcha da Maconha

A maconha é geralmente considerada a mais popular, barata e inofensiva das drogas, muito menos nociva que o fumo e o álcool. Os seus usuários não veem sentido na sua proibição, e proclamam, agora pelas ruas, que a legalização do consumo do baseado seria altamente benéfica para a nação. Estarão com a razão os apologistas da droga?

Não faltam teorias conspiratórias que associam a repressão governamental ao uso da maconha a interesses escusos, tanto políticos quanto econômicos.

Segundo essas teorias, esta repressão faria parte da política expansionista norte-americana e também do combate à presença cada vez maior dos mexicanos no sul daquele país, disputando empregos com os cidadãos norte-americanos.

Essas teorias conspiratórias políticas denunciam, às vezes delirantemente, um suposto preconceito dos países ricos em relação a árabes, chineses, mexicanos e negros, usuários tradicionais da droga. Para os mais exaltados, como o cientista político Thiago Rodrigues, a proibição das drogas é uma forma de controle social utilizada pelos governantes.(1) Os que pensam dessa forma certamente consideram também a religião apenas como um instrumento de dominação.

Existem também as teorias conspiratórias econômicas, que associam a repressão à maconha ao interesse de grandes grupos econômicos como a Du Pont, que temeria a concorrência da fibra natural do cânhamo em relação à suas fibras sintéticas, como também de William Randolph Hearst, dono de uma grande rede jornalística, que plantava eucaliptos e outras árvores para produzir papel. Ele teria assim também interesse em que a maconha americana fosse destruída – levando com ela a indústria de papel de cânhamo.

A verdade, porém é que grande parte politica de combate ao uso da maconha foi equivocada, motivada pela pouca informação disponível sobre as conseqüências do seu uso, o que teria provocado reações alarmistas por parte dos órgãos governamentais. Os dados considerados até hoje mais confiáveis sobre o assunto foram obtidos apenas em 1995, com a conclusão do relatório oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre as consequências físicas e psicológicas do uso da maconha.

Segundo esse estudo, foram comprovados os seguintes malefícios produzidos pelo uso contínuo da maconha:

a) Redução da capacidade de raciocínio e da memória;
b) Indução ao uso de drogas mais pesadas, sobretudo entre adolescentes;
c) Prejuízo da coordenação motora;
d) Dano ao aparelho respiratório;
e) Redução da produção de hormônios;
f) Acentuação de problemas psiquiátricos em pessoas com histórico destes problemas;
g) Efeito desmotivacional em adolescentes.

O estudo da OMS não comprovou nenhum efeito danoso da maconha sobre o sistema imunológico de pessoas saudáveis, entretanto outros estudos apontam riscos para pessoas portadoras do vírus HIV.

Do ponto de vista moral e psicológico, a maconha é semelhante a qualquer outra droga. Além dos seus efeitos nocivos sobre o organismo, causa dissolução psíquica e espiritual, ou seja, perda parcial da capacidade de autodomínio e autocensura, levando a uma liberação de eventuais limites morais, presentes no estado normal de consciência. Causa também a despersonalização do indivíduo. Despersonalização é uma síndrome de desordem dissociativa, caracterizada por sensações de irrealidade, de ruptura com a personalidade, amnésia e apatia.

Além disso, tende a potencializar a sensibilidade física e emocional, em detrimento da capacidade intelectual e da sensibilidade espiritual.

O uso de drogas é ancestral na história da humanidade e faz parte da cultura humana, o que não significa, no entanto, que deva ser aceito como uma característica normal do comportamento humano e muito menos incentivado. O uso de drogas, assim como outros vícios, é uma forma degenerada de expressão do impulso ontológico humano de transcender a realidade material.

Mas assim como outros vícios, deve ser combatido, não através da repressão pura e simples, mas através da conscientização pública, da prevenção e da promoção da realização pessoal e espiritual do indivíduo, que é a forma legítima de atualização do impulso de transcendência.

O desenvolvimento da dependência da maconha, embora seja baixo entre adultos (entre 6% e 12%) é bastante freqüente entre jovens e adolescentes, (46,3%) conforme demonstra o estudo Curso Natural do Uso, Abuso e Dependência de Maconha ao Longo das Primeiras Décadas de Vida, publicado pelo periódico médico Addiction. (2)

Entretanto, a dependência de drogas é um problema de saúde, não um problema criminal. Não faz sentido punir criminalmente o usuário da droga, mas sim proporcionar a ele o tratamento médico e psicológico adequado. Nada mais justo, portanto, que descriminalizar o uso da maconha e de outras drogas.

Legalizar, no entanto a produção e a comercialização da maconha é uma questão complexa, que tem aspectos positivos e negativos.

Por um lado, a legalização cria uma atividade industrial e comercial intensa, que gera empregos e impostos, como aconteceu com o fumo e com as bebidas alcoólicas. Aparentemente elimina também o tráfico dessa droga e seus efeitos nefastos, como a criminalidade e o surgimento de formas de poder político econômico ilegais. Entretanto, essa suposição é ilusória. A maconha tem importância secundária na economia do tráfico de drogas, que tem nas drogas pesadas a sua maior lucratividade.

Os países citados como exemplo do sucesso da legalização da maconha não são parâmetros para o resto do mundo. A Suécia e a Holanda não têm tantos problemas de injustiça social e desemprego como os países em desenvolvimento. Além disso, como lembrou Antonio Maria Costa, diretor-executivo do Escritório de Drogas da ONU, não estão na rota do tráfico internacional e sua população possui um alto nível de escolaridade, o que facilita as campanhas de prevenção. (3)

Por outro lado, a legalização certamente provocaria um aumento no consumo da droga, o que por sua vez causaria ainda mais confusão social, pelos seguintes motivos:

a) A polícia, de um modo geral, não está preparada para combater o remanejamento das atividades do narcotráfico. Se não puderem vender maconha, os traficantes continuarão vendendo outras drogas e se o consumo dessas drogas diminuir, eles vão buscar outra atividade criminosa.
b) Não existe também; como apontou o jornalista Ruy Castro; infraestrutura adequada na rede de saúde pública no Brasil para atender o aumento dos casos de dependência que certamente ocorreria. (4)  É de conhecimento público que o imposto proveniente do fumo e das bebidas alcoólicas, que deveria servir prioritariamente para o tratamento dos malefícios causados pela dependência destas drogas, não é efetivamente empregado para este fim.
c) Embora na Holanda tenha havido uma diminuição no consumo de drogas pesadas com a legalização do consumo da maconha, nada garante que isso ocorreria também em outros paises. Caso haja um aumento no consumo da cocaína no Brasil, por exemplo, aumentará também a violência social, que é normalmente associada ao consumo dessa droga.

A solução para a questão do uso de drogas, a longo prazo, é investir na melhoria das condições socioeconômicas e a curto prazo, na sua prevenção. O cânhamo possui sem dúvida usos medicinais e industriais; muitos deles ainda desconhecidos ou pouco explorados. Estas possibilidades podem e devem ser amplamente exploradas, pois são totalmente independentes do uso psicotrópico da droga.

Toda manifestação pela liberalização do uso da maconha como droga é irresponsável, na medida em que desconsidera a complexidade e os altos riscos envolvidos nas implicações desta medida, não apenas para usuários ainda incapazes de avaliar as consequências do uso da droga, como também para a sociedade em geral, que deverá arcar não apenas com o seu custo econômico, mas sobretudo com o seu custo moral e espiritual.

Ao ver erguidas nas ruas bandeiras como as da Marcha da Maconha e da Parada do Orgulho Gay, me entristeço profundamente, por constatar que em um país ainda tão carente de Deus, de justiça e de igualdade social, milhares de pessoas preferem se mobilizar por ideais como o direito de se drogarem e de instituir a perversão de sua sexualidade.

REFERÊNCIAS:

1 - Drogas: proibir é legal? - Tarso Araújo – Superinteressante – Ed. 244 – Outubro 2007
2 - Addiction, 103, 439-449 - Autores: Axel Perkonigg, Renée D. Goodwin, Agnes Fiedler, Silke Behrendt, Katja Beesdo, Roselind Lieb, Hans-Ulrich Wittchen. – 1995-2005
3 - Drogas: proibir é legal? - Tarso Araújo – Superinteressante – Ed. 244 – Outubro 2007
4 - Pressa em Liberar – Ruy Castro - Folha de São Paulo – 10/06/2011

0 comentários:

Postar um comentário

Qual é a sua opinião?