O salmista bíblico, inspirado por Deus, escreveu que o ser humano, na escala da criação, foi criado um nível apenas menor que os anjos.
Talvez esteja exagerando, mas acredito que a mulher está exatamente neste limite entre o humano e o angelical. Não por que seja inerentemente pura, mesmo por que foi ela quem induziu o homem ao pecado, mas por sua própria natureza.
Séculos e séculos de maus tratos e desprezo masculinos, entretanto brutalizaram a tal ponto a alma feminina que é difícil hoje encontrar uma verdadeira mulher. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro e se a revolução feminista, como subproduto de suas inúmeras conquistas, masculinizou a mulher; o homem por sua vez, como consequência da inexorável lei da reação, se efeminou, de tal maneira que é difícil hoje também encontrar um homem verdadeiro.
Quando falo em homens e mulheres verdadeiros me refiro ao ser humano em sua plenitude, de corpo, alma e espírito, conforme originalmente foram criados.
Evidentemente, nenhum ser humano possui hoje a sua natureza original, conforme criada por Deus, porque ela se corrompeu pelo pecado, como todo o restante da natureza. Entretanto, é possível ainda encontrar homens e mulheres que não se entregaram simplesmente a esta corrupção e ainda preservam a essência de sua natureza original.
Os seres humanos, como toda a natureza, foram criados perfeitos, o que significa que eram belos, em todos os aspectos do seu ser e essa beleza estava vinculada a todos esses aspectos, de maneira indissociável. Assim, os seres humanos originais eram belos de corpo, alma e espírito. Lamentavelmente, hoje não é mais assim e é possível encontrar pessoas exteriormente belíssimas, mas que são extremamente feias em seu íntimo, e naturalmente o contrário também é verdadeiro.
A beleza de corpo é a beleza estética formal, a beleza de alma está associada à personalidade e a beleza de espírito está associada ao caráter e às aspirações humanas mais íntimas.
É um indescritível deleite ao conhecer uma mulher, descobrir nela estas três dimensões essenciais do seu ser e se maravilhar com a beleza existente em cada uma delas.
A beleza física, a mais aparente e a de maior impacto, é também a mais frágil. Ela revela com grande intensidade o efeito implacável do tempo e das circunstâncias. Entretanto, é impossível permanecer indiferente diante de uma bela mulher. Não são apenas os poetas e outros artistas que se rendem à beleza do corpo feminino. Muitos homens foram (ou ainda são) capazes de dar (e tirar) a vida por uma bela mulher.
Já a beleza de alma se revela na inteligência, nos gestos, no andar, no falar: a graça feminina. Embora isso não seja tão evidente como no caso da beleza física, o seu impacto pode ser tão ou mais avassalador. É através desta graça que uma mulher pode se revelar tão sensual como um demônio ou tão doce como um anjo. É por causa dessa graça que muitos homens se veem inexplicavelmente atraídos por mulheres que não são fisicamente belas, a ponto de desejar tê-las ao seu lado por toda a vida.
É através da graça que a mulher revela a sua feminilidade. A graça feminina está presente de forma mais pura, simples e espontânea na idade mais tenra da mulher, da meninice à juventude. Depois disso ou ela mingua ou deixa de ser espontânea.
A única coisa que pode acabar com a graça, com a beleza de alma de uma mulher é a sua brutalização. Um homem de alma ou espírito brutos pode destruir completamente a graça de uma mulher, a ponto de torna-la extremamente parecida com ele. Isso é obviamente uma estupidez, mas a estupidez ainda é um forte traço na alma masculina.
Finalmente, existe a beleza de espírito, a mais sutil e refinada forma de beleza humana. Ela está associada não apenas ao caráter humano, mas também a seus valores e aspirações mais íntimas. É através do espírito que a mulher revela vulgaridade e frivolidade ou nobreza e virtude. É ali também que estão seus anseios e seus temores, suas frustrações e seus talentos, além é claro, de sua espiritualidade. É possível se apaixonar intensamente por uma mulher por causa da beleza do seu corpo ou da sua alma, mas isso não é amor verdadeiro. Somente é possível amar realmente uma mulher se se mergulhar completamente em seu espírito, e estabelecer ali um conluio permanente.
A maioria dos relacionamentos entre um homem e uma mulher não se sustentam porque são superficiais, ou seja, se baseiam apenas no conluio físico, emocional ou intelectual. Em nosso tempo, mais que nunca, desde que os jovens conquistaram autonomia para escolher seus próprios pares, as pessoas não desejam se conhecer profundamente, mas apenas estabelecer relacionamentos práticos, úteis e prazerosos. Se no passado isso ocorria por descuido ou insensibilidade, hoje ocorre intencionalmente.
A poesia é uma das melhores formas de se expressar o amor, seja ele passional ou real. Para amar uma mulher, entretanto, não é necessário romance, nem poesia, aliás, estas coisas só atrapalham, pois envolvem tudo em um véu fútil de fantasia. Nenhuma mulher é romântica, ainda que ela pense ser. O romantismo na verdade é a expressão tosca desse anseio profundo do espírito humano pelo amor verdadeiro.
Vinicius de Moraes, como Pablo Neruda, estão entre os poetas que melhor compreendiam a alma de uma mulher. Entretanto, eles se limitavam a suas paixões, que vivam inatensamente, e provavelmente jamais amaram verdadeiramente uma mulher. Vinícius escreveu, em um de seus mais lembrados sonetos:
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Soneto da Fidelidade)
Uma mulher é como um vasto e desconhecido continente a ser conquistado e o bravo descobridor aporta nele navegando pelo mar do seu olhar.
As terras à sua frente podem se revelar secas e áridas como uma caatinga, ou densas e luxuriantes como uma selva; monótonas como uma campina, ou plácidas como um vale e essas paisagens se sucedem ao longo de sua jornada. Entretanto, elas sempre guardarão perigos e surpresas, frustrações e desapontamentos, gozos e encantos.
O descobridor incauto corre nesta empreitada grandes riscos: risco de se perder de si mesmo, risco de perder a cabeça e até mesmo o risco de morrer e de matar por sua paixão.
Vinicius fala de seu anseio pelo verdadeiro amor:
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar,
Plantado num chão verde
Para eu morar-te.
Morar-te até morrer-te...
(O Mais que Perfeito)
Ao desembarcar nesta terra, o descobridor depara com o corpo de sua amada. É ali que ele inicia sua jornada e muitos tolos se fascinam de tal modo pelos encantos e prazeres destas praias que se demoram ali e chegam a fazer ali mesmo a sua morada.Neruda é talvez o poeta que mais exprime esta ânsia sensual insaciável:
Corpo de pele e de musgo, de ávido leite e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei em tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho
indeciso!
Obscuros leitos onde a sede eterna continua,
e segue a fatiga, e esta dor infinita.
(Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada)
Os mais sagazes, entretanto sabem que não é ali que está o verdadeiro tesouro daquela terra e avançam, em busca da alma da mulher amada. A descoberta da alma de uma mulher é uma das mais fascinantes aventuras a que um homem pode se entregar. Drummond fala do significado desse momento:
E quando decidir que chegou a sua hora de amar,
Lembre-se que é preciso haver identificação de almas!
De gostos, de gestos, de pele...
No modo de sentir e de pensar!
(Para Viver um Grande Amor)
Mas a maioria dos homens acredita que este é o fim da jornada. Ou ficam nesse lugar ou dali retornam. Julgam conhecer a mulher que está ao seu lado porque conhecem sua voz, seus gestos, seus gostos, suas afinidades, seus vícios e suas opiniões sobre política, economia, família e futebol; além, é claro, de cada palmo de seu corpo.
Somente os mais sábios e os mais indômitos prosseguem a jornada, rumo aos recônditos mais longínquos daquela terra: o espírito de sua amada. É ali que se encontra o lugar mais belo (ou mais feio) desse território. É pelo seu espírito que uma mulher pode envolver um homem em profunda paz ou leva-lo à loucura. É pelo seu espírito que uma mulher pode levar um homem aos mais gloriosos feitos ou faze-lo sentir-se como o mais desprezível dos seres sobre a terra.
Para o fim dessa jornada é preciso não se deixar abater pelo aparente enigma que é o espírito de uma mulher. Devagar ele se revela ao descobridor paciente, pois é a paciência que produz a perseverança e a perseverança traz o conhecimento. É ali que ele encontra o melhor (ou o pior) daquela terra e é ali que ele faz ou não a sua verdadeira morada.
O amor requer atenção, cuidado, carinho e dedicação, mas sobretudo, requer profundo conhecimento mútuo. Não existe amor à primeira, nem à segunda, nem à terceira vistas. Para amar é preciso conhecer sobretudo a essência, que é o espírito. Não o conhecimento frio e distante, psicanalítico, mas o conhecimento do descobrimento, pelo qual anseia o desbravador, que se lança por inteiro na sublime aventura de conhecer a terra onde vai habitar. Creio que foi Drummond quem mais compreendeu o verdadeiro amor:
É preciso conhecer no outro o ser tão procurado!
É preciso conquistar e se deixar seduzir...
(Para Viver um Grande Amor)
Se um homem deseja realmente amar uma mulher, desnecessário se torna o sermão moralista da fidelidade. A fidelidade é o primeiro pressuposto do amor verdadeiro, conforme atesta o próprio poeta:
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
(Para Viver um Grande Amor – Vinicius de Moraes)
É justamente esse amor verdadeiro, esse conluio espiritual, essa cumplicidade existencial o que verdadeiramente nos distingue de outros animais, e a única forma de relacionamento que nos remete à beleza original com que fomos criados.
A melhor descrição deste amor é bíblica, e foi dada por um homem que foi capaz de experimentar o amor em sua forma mais sublime:
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.
O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
1 Coríntios 13:4-7
Mas cá entre nós. Se um homem puder encontrar em sua esposa, além desse conluio espiritual a graça e a beleza física, esse é certamente um bem-aventurado, alguém realmente abençoado por Deus.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Para Amar uma Mulher
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