Há algum tempo atrás escrevi um texto que chamei A Usina. Nele eu abordava a dramática divisão psicológica que ocorre na vida dos novos cristãos, quando o novo convertido se vê subitamente envolvido em uma tremenda tensão espiritual, entre a sua antiga natureza, que ainda persiste nele, e a sua nova natureza, criada por Deus.
Comparei neste texto a interação entre estas duas naturezas a uma situação em que uma nova usina geradora de energia, mais moderna e segura, é construída para substituir a antiga, ultrapassada e cheia de defeitos. Durante o processo de crescimento espiritual cristão, a velha usina, que representa a sua velha natureza, é gradativamente desativada, enquanto que a nova usina, recém construída, que representa sua nova natureza, entra em atividade, até que substitui totalmente a antiga, que deixa assim de operar.
Hoje refleti novamente sobre este assunto, enquanto pensava sobre a magnitude e as conseqüências do conflito que muitos cristãos vivem interiormente; entre estas duas identidades. A princípio, este é um fenômeno normal, que reflete o processo de crescimento da nova natureza que passa a existir na alma do cristão, e o declínio da velha natureza, que paulatinamente vai sendo sobrepujada, por uma nova consciência. Paulo via essa processo como uma verdadeira luta íntima, entre a carne e o espírito, pela prevalência sobre a natureza humana.
Este processo, entretanto, pode persistir, de forma bizarra, na vida de muitos cristãos, por toda a sua existência. Quando uma pessoa adota os valores cristãos, mas não passa por uma verdadeira conversão; ou quando ocorre uma conversão espiritual, mas não um renascimento espiritual; ela pode ficar indefinidamente presa em um permanente conflito psicológico, o que tem um efeito altamente nocivo sobre a sua vida.
A verdade é que a conversão cristã plena nem sempre ocorre no momento em que aceitamos a Jesus como nosso único Senhor e Salvador. Para muitos cristãos, a verdadeira conversão e o conseqüente renascimento espiritual somente ocorrem muito tempo depois, quando vimos a conhecer verdadeiramente a Deus e permitimos que Ele venha habitar em nosso coração. Para algumas pessoas entretanto, lamentavelmente, esses transformações cruciais de suas vidas nem chega a ocorrer, e o individuo se vê preso a um limbo, onde já não se identifica com seu antigo estilo de vida, mas também não vive plenamente o novo estilo de vida que escolheu. É como sair de um lugar para ir para outro lugar, mas nunca chegar, e passar a viver vagando pelo caminho.
Como isso é possível? Para entender esta trágica situação, é preciso compreender claramente em que consistem a conversão cristã e o renascimento espiritual que normalmente a acompanha.
Conversão é essencialmente uma decisão. Decisão motivada pela insatisfação real com um estilo de vida mundano e pecaminosos, pelo arrependimento sincero pelos erros cometidos e a firme convicção de estar disposto a se tornar um discípulo de Cristo. Com a conversão, o cristão recebe em seu coração a presença do Espírito Santo, que passa a habitar nele e a agir no sentido de orientá-lo segundo a vontade de Deus, e não mais segundo a vontade de seu eu. Além disso, o Espírito Santo cria nele, gradativamente, uma nova consciência; uma consciência cristã.
Este, entretanto, ainda não é o renascimento espiritual, que consiste na regeneração da mente e do coração humanos, de modo a que o individuo possa assumir a sua nova identidade como discípulo de Cristo. Para tanto, é necessário que o cristão entregue realmente toda a sua vida nas mãos de Deus, permitindo a Ele moldá-lo, como um oleiro molda um vaso novo, a partir do barro informe.
O que acontece na vida de muitas pessoas é que esses dois processos não ocorrem como deveriam ocorrer, seja por não ter havido uma verdadeira conversão, seja por não ter havido um renascimento espiritual. Isto cria na personalidade do indivíduo uma divisão, uma personalidade híbrida, que muitas vezes passa despercebida pelas pessoas com as quais ele se relaciona, até mesmo em sua igreja. Estas pessoas ainda vivem carnalmente e não são guiadas pelo Espírito de Deus. Elas dificilmente conseguem levar alguém a Cristo, as suas obras são ineficazes e não têm permanência. Buscam sempre as bênçãos de Deus, mas não buscam sinceramente a Deus. São cristãos mornos, também chamados cristãos nominais, cristãos religiosos ou falsos cristãos.
Esse cristão híbrido pode entretanto conviver indefinidamente com essa estranha divisão de sua psicologia. Separa a sua vida entre situações seculares e situações espirituais. As situações seculares são o tempo em que passa trabalhando, fazendo reparos na casa ou a manutenção do carro; o tempo que gasta com suas atividades fisiológicas e mesmo o tempo que passa com a família, com os amigos, se divertindo ou se entregando a atividades que lhe dão prazer. As situações espirituais são aqueles momentos que reserva para cultuar e adorar a Deus; seja na igreja, seja em reuniões domésticas, seja na privacidade de seus aposentos, onde se dedica à oração e ao estudo da Bíblia.
Sempre me intrigou o fato de que quando estava na igreja, sentia-me maravilhosamente perto de Deus; sentia a alegria de sua presença, a sua paz, o conforto da sua mensagem. Deixava a igreja sempre de modo totalmente diferente de como ali havia entrado. Entretanto, no dia seguinte tudo voltava ao "normal"; isto é, a mesma frustração, a mesma tristeza, os mesmos temores e preocupações do constituem a rotina diária. Por que esse contraste?
O que antes eu não podia explicar, pois achava que Deus deveria de alguma forma operar em mim um milagre que perpetuasse a beleza, o gozo e a plenitude daqueles momentos, hoje consigo compreender de forma absolutamente clara. A verdade é que eu não vivia uma vida de plena comunhão com Deus. Ele ocupava por assim dizer um nicho da minha vida, a que eu chamava de "o primeiro lugar", mas durante a maior parte da minha vida eu reprimia a sua presença, preservando este nicho como algo precioso demais para se misturar com meu cotidiano. Apenas na igreja, nos momentos de oração e estudo e no convívio com pessoas cristãs eu me permitia realmente me relacionar com Deus.
Deus era um assunto que normalmente não fazia parte das minhas conversas com amigos, vizinhos ou parentes não cristãos e que eu mantinha no recôndito da minha privacidade, juntamente com os fatos mais íntimos da minha vida. Deus era um assunto que eu reservava apenas para aquelas pessoas com quem sentia alguma afinidade espiritual; não por me sentir constrangido ao falar nele, mas por julgar que para falar de Deus era necessária uma ocasião especial e um interlocutor especial; que fosse também cristão ou que demonstrasse possuir um espírito contrito, pronto para ouvir o chamado de Jesus e ser evangelizado.
Vivia assim uma vida dupla, composta de uma dimensão interior, espiritual e profunda, marcada pelo temor e por um contido e secreto amor a Deus; e uma dimensão exterior, prática e objetiva, através da qual eu me relacionava com o mundo à minha volta.
É mais comum do que se imagina as pessoas experimentarem não uma plena conversão espiritual, operada em seu coração, mas apenas uma conversão formal; ou seja, uma mudança intelectual de atitude em relação à vida; normalmente acompanhada de emoção e de sentimentos de culpa, mas não de verdadeiro arrependimento e conseqüente renascimento espiritual. Esta é uma das causas desta dicotomia psicológica, que cria no indivíduo a noção de que a vida secular e a vida espiritual são coisas diferentes e precisam ser tratadas de forma diferente.
Essa pessoa passa a pensar mais ou menos da seguinte forma:Deus é maravilhoso, mas quem entende mesmo de minha vida cotidiana é o velho eu, ele já tem o "jeito" para lidar com o dia-a-dia, com as coisas práticas e racionais, pois afinal ele aprendeu vivendo, e que experiência ele tem nisto!
Acredita que a Deus é preciso dedicar apenas as áreas mais nobres de sua vida, como a edificação de seus valores e princípios e a direção de sua vida espiritual. Por que envolvê-lo na mediocridade de seu cotidiano? Deus não precisa ir com ela ao supermercado. Entrega a Ele a direção de sua vida, mas apenas aquelas decisões cruciais, que ela não sabe tomar. Cada coisa em seu lugar: Quando vai para o trabalho, o melhor é deixar Deus em casa, junto de sua Bíblia, pois ora a ele todas as manhãs e pede a sua bênção. Afinal, ela já sabe tomar conta de si mesma!
Além disso, se precisar de sua ajuda, basta pedir e Ele logo virá em seu socorro. Foi ensinada a "fazer a sua parte" para que Deus faça a parte dele; como se Deus não fizesse parte de nosso pensar, de nosso querer e de nosso agir. Afinal, ela não precisa invocar a Deus para resolver aqueles problemas com seus fornecedores, ou aquele relacionamento difícil com o vizinho, ou ainda aquelas dificuldades financeiras normais de toda família. Não precisa de Deus para escolher o curso que vai fazer ou com quem vai se casar ou a casa que vai comprar.
No entanto, vivendo dessa forma ela cria uma vida cheia de altos e baixos, cheia de lacunas, de vazios às vezes; mas diz para si mesma que a vida de todo mundo é assim, nada que não possa ser resolvido com um bom filme, um jogo de cartas, um passeio no shopping, um bom papo com os amigos. Anda triste e apreensiva às vezes, mas quem não anda? Logo chegará o dia do culto na igreja e poderá então renovar as suas forças espirituais. O problema é que às vezes ela chega até a igreja com as suas reservas espirituais tão baixas, que nem mesmo consegue se recuperar.
Vive assim, servindo a dois senhores, sem perceber. Mas o mais grave é que também sem perceber, ela relega Deus ao segundo lugar em sua vida. Embora nominalmente o declare senhor de seus caminhos, quem dirige na prática as sua vida é o velho eu, o velho homem que insiste em viver nela. Existe na verdade uma grande diferença entre entregar efetivamente nossos caminhos ao Senhor, rendendo-nos à sua soberania sobre as nossas vidas; e levar esta vida dúbia, em que honramos a Deus com palavras e louvores, mas não com o nosso coração. Entoa o velho hino: "Vem espírito de Deus! o meu coração é o Teu altar", mas na verdade o altar de Deus no coração dela está vazio.
O nosso sistema de relacionamento humano e espiritual é semelhante aos sistemas audiovisuais de telecomunicação, que utilizam ondas eletromagnéticas para transmitir uma programação a que temos acesso através do rádio e da televisão.
O relacionamento humano se daria; segundo essa analogia, em uma determinada faixa de frequências; enquanto que o relacionamento espiritual se daria em uma outra faixa de freqüências, mais elevada. Em seu relacionamento com o mundo, o cristão híbrido sintoniza com a faixa de frequências do mundo e em seu relacionamento com Deus, utiliza a faixa de frequências espirituais.
O problema é que quando vai para o trabalho, muda a faixa de frequência de sua mente para a faixa do mundo e assim se desliga de Deus. Ao entrar na igreja ou em seu quarto para orar, faz o contrário; isto é, se desliga do mundo e sintoniza apenas com Deus. Isto, porém faz com que desperdice um tempo enorme de sua vida longe daquele que é a própria vida, o nosso Criador e Senhor. O Deus do seu cotidiano se torna assim apenas uma espécie de ícone sagrado, excluído inteiramente de sua vida secular; por quem nutre um temor cerimonial e a quem recorre apenas em suas aflições e anseios.
Mas, na verdade, não é preciso que seja assim e nem deve ser assim. Não faz sentido perder a nossa sintonia com Deus quando desempenhamos atividades seculares; e nem precisamos deixar os nossos problemas seculares do lado de fora da igreja quando ali entramos para orar e cultuar a Deus.
Se verdadeiramente conhecermos a Deus e o amarmos, a ponto de que a sua presença venha a se tornar algo tão vital para nós como o ar que respiramos; então Ele já não será apenas um símbolo, um ser de quem ouvimos falar e a quem devemos adorar. Ele se revelará a nós então como o Criador, o Pai espiritual, o amigo e o eterno amado de nossas almas. Ele estará de tal forma entranhada em nossos corações; que os cultos na igreja, os momentos de oração e estudo; não mais serão momentos de nos encontrarmos com Ele, mas momentos de estar em plena intimidade com Ele; de celebrar a nossa comunhão com Ele; momentos de aprender com Ele e de lhe dar graças por suas dádivas em nossas vidas. Para isto entretanto, é preciso que tenhamos realmente nascido de novo, da água e do Espírito.
O pastor Márcio Valadão, da IBL de Belo Horizonte declarou certa vez, em uma de suas pregações: Ou Deus ocupa o primeiro lugar em sua vida ou Ele não ocupará o segundo. Em vão nos enganamos e julgamos enganar a Deus, crendo estar em comunhão com Ele; quando reservamos a Ele na verdade apenas o segundo lugar em nossas vidas a que chamamos, às vezes cinicamente, "o lugar mais nobre". Deus, entretanto é senhor das coisas espirituais, mas precisa ser senhor também das coisas seculares, dos nossos prazeres, dos nossos negócios, e precisamos nos colocar em sua total dependência, mesmo nas mínimas coisas que fazem parte de nosso cotidiano.
Isto não é negar a nossa própria responsabilidade para com nossas decisões e nossos atos; é apenas o reconhecimento de que Ele é a própria essência de nossas vidas, o nosso fôlego vital, a luz dos nossos olhos, o calor do nosso sangue, assim como é a fonte de nossos sentimentos e anseios mais elevados. É Ele quem opera em nós "tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." (Filipenses 2:13)
Na verdade, até experimentarmos o renascimento espiritual, nós mesmos preferimos, inconscientemente, viver desta maneira dual se não experimentamos uma autêntica conversão espiritual de vida. Viver sob o domínio do eu psicológico tem muitas desvantagens, como os altos e baixos emocionais a que estamos sujeitos; os temores, a angústia e a ansiedade em que nos vemos continuamente mergulhados; a insegurança e o desassossego causados pelas tribulações diárias.
Entretanto, intimamente reconhecemos nesse domínio egocêntrico certas vantagens às quais nos acostumamos; como certas reações automáticas que adotamos, diante de algumas situações que não requerem de nós nenhuma reflexão. Além disso, podemos nos deleitar em nossos pequenos hábitos e vícios, os quais nos transmitem uma sensação de paz e bem-estar. A idéia de confiarmos inteiramente o domínio de nossas vidas a Deus nos parece sem dúvida uma decisão demasiadamente ousada e assustadora. Afinal, isso implicaria em mudar radicalmente o nosso modo de viver.
Além de nos assustar, a idéia de consagrar totalmente as nossas vidas a Deus representa um desafio que muitos de nós não temos a coragem necessária para aceitar. Assim, julgamos não apenas natural, mas prudente, continuarmos dividindo a nossa consciência, como sempre fizemos, deixando "cada coisa em seu devido lugar". Esta é, no entanto uma decisão enganosa, pois se na prática relegamos Deus a um segundo lugar em nossas vidas, não podemos dizer sinceramente como cristãos que estamos em Cristo e que Cristo vive em nós. A atuação de Deus em nossas vidas torna-se também parcial. Nossas orações às vezes são ouvidas, outras vezes não. Nossa fé é vacilante, como também a nossa fidelidade a Ele, pois na verdade servimos a um Deus a quem não amamos realmente.
Para amar alguém é preciso conhecer. Deus nos conhece e por isso nos ama, mas nós não o conhecemos. O livro Cantares de Salomão é um poema que narra o amor de um rei e de sua noiva. Nele, ambos elogiam os encantos um do outro e falam de sua ansiedade em se encontrar. Creio que nosso relacionamento com Deus deveria ser também de tal intensidade.
Quando amamos verdadeiramente, a imagem da pessoa amada não sai de nossa mente e estamos permanentemente em sintonia com ela, o que quer que estejamos fazendo. Aqueles que não nasceram de novo, no entanto, não conhecem a Deus o suficiente para amá-lo desta forma. Na verdade eles o temem mais que o amam, por que não o conhecem. É verdade que Deus se revela a nós de muitas maneiras, mas a melhor maneira de conhecer alguém ainda é pessoalmente. Podemos ir à casa de uma pessoa, sem que ela esteja presente e conhecer um pouco dela, através do que nos falaram a respeito dela, através de seus pertences, através de fotos e de seus escritos. Mas isso não traz a mesma profundidade de conhecimento que um convívio pessoal. Como, no entanto estabelecer esse convívio se somos carne; e Ele é Espírito, se somos sangue; e Ele é luz, se somos impuros; e Ele é santo?
Alguns místicos cristãos consagraram tanto as suas vidas a Deus que conseguiram alcançar um nível de convívio com Ele bastante profundo; algo bastante semelhante a um convívio pessoal. No mundo moderno, porém, estamos envolvidos de tal forma com as atividades seculares, que nos sobra muito pouco tempo para buscar a Deus. Mas para estar em comunhão com Deus não é preciso nos isolar em conventos ou mosteiros; embora seja essencial que nos santifiquemos, ou seja, que vivamos moral, cultural e espiritualmente separados do mundo. Isto significa que para alguns, talvez seja realmente necessário se afastar fisicamente do mundo, ou pelo menos do seu núcleo habitual de convívio, por algum tempo. Por causa da dureza de nossos corações, Deus se revela mais a nós nos momentos de solidão e de dor; do que quando estamos cercados por amigos e familiares, em prosperidade e em paz com o mundo.
Desde o advento de Cristo ao mundo, Jesus é o único caminho através do qual é possível conhecer a Deus a chegar até Ele. Jesus disse que quem o conhecesse conheceria também a Deus (João 14:9). Jesus foi o próprio verbo feito carne, a sua doutrina não era dele, mas daquele que o enviara. Ele dizia que o Pai estava nele e Ele no Pai e que as suas obras eram as obras de Deus. Jesus é, portanto o nosso perfeito mediador entre a carne e o Espírito; entre o divino e o humano, a ponte que nos uniu ao Pai, sobre o abismo antes intransponível do pecado.
Logo, para chegar a Deus é preciso negar a si mesmo, tomar a sua cruz seguir a Jesus. Esta entrega total significa submeter todos os nossos bens, nossos relacionamentos e a nossa própria vontade ao seu senhorio, colocando sobre o seu altar e ao seu dispor tudo aquilo que nos identifica com o mundo.
Significa confiar plenamente em sua sabedoria, em seu amor e em sua justiça, tomar sobre si o seu jugo suave e aprender dele a mansidão e a humildade. Esta total rendição a Cristo; decorrente da plena confiança nele, é essencial para que venhamos a nos ligar à sua videira e consequentemente conhecer ao Pai. Jesus se espantava às vezes ao perceber que seus próprios discípulos, que conviviam com Ele diariamente; demonstravam ainda não conhecê-lo e não confiar plenamente nele, através de sua falta de fé: “Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?” (Marcos 4:40)
Seguir a Jesus significa implica também em sermos seus perfeitos imitadores, ou seja; permitir que o nosso modo de pensar, falar e agir se torne o mais semelhante possível ao dele, em nosso dia-a-dia e em nossos relacionamentos. A nossa mente precisa assim estar sempre em sintonia com a mente de Jesus, para que Ele nos guie em todos os momentos de nossas vidas; e não apenas naqueles mais críticos ou mais significativos, a nosso critério. Ele é o nosso perfeito guia, o nosso Pastor; e ninguém melhor do que Ele pode nos conduzir nesta jornada pelo caminho que leva de volta à casa do Pai, pois Ele viveu no mundo, conhece o mundo e venceu o mundo.
Precisamos, portanto, encontrar uma forma de tornar o nosso convívio diário com Deus o mais profundo possível; para que assim possamos conhecê-lo cada vez mais e amá-lo cada vez mais, de modo a que ele possa realmente ocupar o seu trono em nosso coração. Isso significa buscar a sua presença. Buscar, durante a maior parte possível de nosso tempo, a sua presença, e isso requer uma sede espiritual.
Esta sede de Deus entretanto somente pode brotar de uma atitude de absoluta insatisfação em relação à vida mundana, com sua corrupção, suas injustiças e sua impermanência. É preciso sentir uma profunda e sincera insatisfação com relação à mediocridade de uma vida egocêntrica e o desejo de mudar, de negar a si mesmo e se render à vontade de Deus.
Uma vida realmente vivida na plenitude da presença e da direção de Deus não tem altos e baixos espirituais, lacunas ou vazios; pois Ele aplaina os nossos caminhos e estamos sempre cheios do seu Espírito, o que significa experimentar contínua alegria, segurança e paz interior; independentemente de quaisquer circunstâncias.
Evidentemente, haverá momentos em nossas vidas que serão de dor, de luta, de indignação; pois afinal ainda estamos no mundo e somos humanos. Até mesmo Cristo passou por momentos assim. Entretanto, é muito mais fácil superar estas situações vivendo no real sustento de Deus e servindo a um só senhor do que divididos entre duas vontades.
Deus não irá curar de modo sobrenatural uma simples e casual dor de cabeça, mas irá participar ativamente junto com cada fibra de nosso corpo no restabelecimento do seu equilíbrio biológico. Da mesma forma, Deus certamente não sairá à rua para procurar um emprego para nós, isso cabe a nós fazer. Entretanto, Ele nos guiará certamente nessa busca; de forma a encontrarmos não apenas um emprego, mas exatamente o trabalho que precisamos em um dado momento de nossas vidas, segundo sua infinita sabedoria.
Deus não irá eliminar milagrosamente os vícios que possamos ter quando a Ele entregamos as nossas vidas; pois eles estão profundamente arraigados em nossa vontade própria, mas o próprio renascimento espiritual e o viver continuamente na sua presença tornarão esses vícios não apenas estranhos a nós; mas também repugnantes, de modo que nós mesmos nos afastaremos deles. A luta entre a carne e o espírito continuará; mas se verdadeiramente nascemos de novo, o espírito prevalecerá sobre carne, pois Cristo venceu sobre a cruz a morte e o pecado.
Nascer de novo espiritualmente significa viver inteiramente segundo a vontade de Deus. Significa que Deus passa a ser tão essencial em nossas vidas como o ar que respiramos é essencial ao nosso corpo. Jamais teremos um pensamento, pronunciaremos uma palavra ou tomaremos qualquer decisão irrefletidamente. Teremos a noção clara e plena de cada pensamento, palavra ou ato; o que significa uma assombrosa ampliação de nossa consciência. Ser infiel a Deus ou ignorar a vontade de seu Santo Espírito neste caso implicaria em uma crise psicológica e espiritual sem precedentes, cujas conseqüências nem ao menos ousamos imaginar.
A nossa percepção é ampliada de tal modo que adquirimos plenitude de consciência de todos os nossos atos, a partir do momento em que despertamos pela manhã. Para muitos cristãos, essa nova percepção faz com que até mesmo a água que cai sobre seu corpo no chuveiro, os sons que vêm da rua e cada um de nossos pensamentos adquiram um significado que antes não percebiam, enriquecendo sobremaneira o modo como vivem cada momento do presente. Os atos antes rotineiros de cozinhar, cuidar da casa, lavar a roupa e tomar o ônibus para o trabalho; tornam-se experiências únicas a cada dia, e incomparavelmente mais ricas.
De um modo geral, a comunhão com Deus faz com que em tudo percebemos a glória de Deus manifestada, até mesmo nas pequenas coisas ao nosso redor. Ou a ausência desta glória, pois aumenta também a percepção da corrupção e da miséria espiritual de muitas pessoas com que cruzamos ou com as quais nos relacionamos.
Mas não é apenas a nossa sensibilidade espiritual que se intensifica. Ao nos deleitarmos a cada momento na presença de Deus; nosso coração começa a compartilhar aquilo que está no coração de Deus, em relação a nossas vidas e nas vidas das pessoas que nos cercam. Passamos a conhecer de forma clara e indubitável qual seja a sua perfeita vontade para as nossas vidas, algo que só podíamos conhecer antes através de muita oração e jejum. Ele nos guia então como guiou o seu povo no deserto, como uma nuvem durante o dia e como um fogo etéreo à noite. Deus compartilha conosco também seu sentimento de urgência com relação à sua obra, o seu amor e compaixão pelos seus filhos e a sua indignação com relação ao pecado e à injustiça que campeiam no mundo.
Se efetivamente nascemos de novo, somos definitivamente firmados na rocha que é Cristo, e Ele passa realmente a ocupar o seu trono em nosso coração. Tornamo-nos canais do seu amor e de suas bênçãos. Nossos sonhos se tornam os sonhos de Deus e nosso maior anseio então é viver em sua presença; e lutar pela realização destes sonhos. A nossa mente se torna cada vez mais semelhante à mente de Jesus; com quem passamos a gozar de plena comunhão, comunhão esta que nos dá o seu amor, e que o mundo jamais poderá abalar.
O apóstolo Paulo demonstra maravilhosamente, através de suas cartas, haver alcançado o seu renascimento espiritual e a plena comunhão com Deus; em função da sua total rendição à vontade divina, a ponto de afirmar que nele não mais vivia o seu eu, mas que Cristo vivia nele. Ele afirma em várias passagens que os seus ensinamentos não provinham de seu intelecto, mas do Espírito Santo. Aos Filipenses (4:12), declarou viver independentemente das circunstâncias; mantendo a sua paz e alegria espiritual, quer na carência ou na abundância. Paulo evidentemente não quis dizer com isso que ele havia se tornado como Deus, mas que seu coração agora era segundo o coração de Deus, como o Rei Davi.
Para verdadeiramente conhecer a Deus e vir a amá-lo, é necessário nascer de novo e para nascer de novo é necessário a total rendição do ser humano ao seu criador: corpo e mente; alma e espírito. Paulo era um homem que efetivamente andava segundo o Espírito de Deus e não segundo a carne. Muitos cristãos hoje, no entanto afirmam haverem nascido de novo e que agora andam "em Espírito". Que diferença grotesca entre essa vida dual que é vivida pela maioria dos cristãos e a vida daqueles que realmente experimentaram o renascimento espiritual e andam no Espírito de Deus!
Por quanto tempo alguém pode se dizer cristão sem haver nascido de novo? É difícil determinar a partir de que momento viver uma vida cristã sem ter ainda renascido em Cristo deixa de ser parte de um processo normal e se torna uma deformidade espiritual.
Creio que somente Deus, que conhece a fundo os nossos corações, pode julgar. Entretanto, é fundamental que o cristão tenha plena consciência de sua condição espiritual, e não tente enganar a si mesmo. Jesus é o Bom Pastor, Ele conhece as suas ovelhas e estas também o conhecem. Jesus afirmou que sem nascer de novo é impossível entrar no Reino de Deus (João 3:3).
Hoje refleti novamente sobre este assunto, enquanto pensava sobre a magnitude e as conseqüências do conflito que muitos cristãos vivem interiormente; entre estas duas identidades. A princípio, este é um fenômeno normal, que reflete o processo de crescimento da nova natureza que passa a existir na alma do cristão, e o declínio da velha natureza, que paulatinamente vai sendo sobrepujada, por uma nova consciência. Paulo via essa processo como uma verdadeira luta íntima, entre a carne e o espírito, pela prevalência sobre a natureza humana.
Este processo, entretanto, pode persistir, de forma bizarra, na vida de muitos cristãos, por toda a sua existência. Quando uma pessoa adota os valores cristãos, mas não passa por uma verdadeira conversão; ou quando ocorre uma conversão espiritual, mas não um renascimento espiritual; ela pode ficar indefinidamente presa em um permanente conflito psicológico, o que tem um efeito altamente nocivo sobre a sua vida.
A verdade é que a conversão cristã plena nem sempre ocorre no momento em que aceitamos a Jesus como nosso único Senhor e Salvador. Para muitos cristãos, a verdadeira conversão e o conseqüente renascimento espiritual somente ocorrem muito tempo depois, quando vimos a conhecer verdadeiramente a Deus e permitimos que Ele venha habitar em nosso coração. Para algumas pessoas entretanto, lamentavelmente, esses transformações cruciais de suas vidas nem chega a ocorrer, e o individuo se vê preso a um limbo, onde já não se identifica com seu antigo estilo de vida, mas também não vive plenamente o novo estilo de vida que escolheu. É como sair de um lugar para ir para outro lugar, mas nunca chegar, e passar a viver vagando pelo caminho.
Como isso é possível? Para entender esta trágica situação, é preciso compreender claramente em que consistem a conversão cristã e o renascimento espiritual que normalmente a acompanha.
Conversão é essencialmente uma decisão. Decisão motivada pela insatisfação real com um estilo de vida mundano e pecaminosos, pelo arrependimento sincero pelos erros cometidos e a firme convicção de estar disposto a se tornar um discípulo de Cristo. Com a conversão, o cristão recebe em seu coração a presença do Espírito Santo, que passa a habitar nele e a agir no sentido de orientá-lo segundo a vontade de Deus, e não mais segundo a vontade de seu eu. Além disso, o Espírito Santo cria nele, gradativamente, uma nova consciência; uma consciência cristã.
Este, entretanto, ainda não é o renascimento espiritual, que consiste na regeneração da mente e do coração humanos, de modo a que o individuo possa assumir a sua nova identidade como discípulo de Cristo. Para tanto, é necessário que o cristão entregue realmente toda a sua vida nas mãos de Deus, permitindo a Ele moldá-lo, como um oleiro molda um vaso novo, a partir do barro informe.
O que acontece na vida de muitas pessoas é que esses dois processos não ocorrem como deveriam ocorrer, seja por não ter havido uma verdadeira conversão, seja por não ter havido um renascimento espiritual. Isto cria na personalidade do indivíduo uma divisão, uma personalidade híbrida, que muitas vezes passa despercebida pelas pessoas com as quais ele se relaciona, até mesmo em sua igreja. Estas pessoas ainda vivem carnalmente e não são guiadas pelo Espírito de Deus. Elas dificilmente conseguem levar alguém a Cristo, as suas obras são ineficazes e não têm permanência. São aqueles normalmente chamados cristãos nominais, cristãos religiosos ou falsos cristãos.
Esse cristão híbrido pode entretanto conviver indefinidamente com essa estranha divisão de sua psicologia. Separa a sua vida entre situações seculares e situações espirituais. As situações seculares são o tempo em que passa trabalhando, fazendo reparos na casa ou a manutenção do carro; o tempo que gasta com suas atividades fisiológicas e mesmo o tempo que passa com a família, com os amigos, se divertindo ou se entregando a atividades que lhe dão prazer. As situações espirituais são aqueles momentos que reserva para cultuar e adorar a Deus; seja na igreja, seja em reuniões domésticas, seja na privacidade de seus aposentos, onde se dedica à oração e ao estudo da Bíblia.
Sempre me intrigou o fato de que quando estava na igreja, sentia-me maravilhosamente perto de Deus; sentia a alegria de sua presença, a sua paz, o conforto da sua mensagem. Deixava a igreja sempre de modo totalmente diferente de como ali havia entrado. Entretanto, no dia seguinte tudo voltava ao "normal"; isto é, a mesma frustração, a mesma tristeza, os mesmos temores e preocupações do constituem a rotina diária. Por que esse contraste?
O que antes eu não podia explicar, pois achava que Deus deveria de alguma forma operar em mim um milagre que perpetuasse a beleza, o gozo e a plenitude daqueles momentos, hoje consigo compreender de forma absolutamente clara. A verdade é que eu não vivia uma vida de plena comunhão com Deus. Ele ocupava por assim dizer um nicho da minha vida, a que eu chamava de "o primeiro lugar", mas durante a maior parte da minha vida eu reprimia a sua presença, preservando este nicho como algo precioso demais para se misturar com meu cotidiano. Apenas na igreja, nos momentos de oração e estudo e no convívio com pessoas cristãs eu me permitia realmente me relacionar com Deus.
Deus era um assunto que normalmente não fazia parte das minhas conversas com amigos, vizinhos ou parentes não cristãos e que eu mantinha no recôndito da minha privacidade, juntamente com os fatos mais íntimos da minha vida. Deus era um assunto que eu reservava apenas para aquelas pessoas com quem sentia alguma afinidade espiritual; não por me sentir constrangido ao falar nele, mas por julgar que para falar de Deus era necessária uma ocasião especial e um interlocutor especial; que fosse também cristão ou que demonstrasse possuir um espírito contrito, pronto para ouvir o chamado de Jesus e ser evangelizado.
Vivia assim uma vida dupla, composta de uma dimensão interior, espiritual e profunda, marcada pelo temor e por um contido e secreto amor a Deus; e uma dimensão exterior, prática e objetiva, através da qual eu me relacionava com o mundo à minha volta.
É mais comum do que se imagina as pessoas experimentarem não uma plena conversão espiritual, operada em seu coração, mas apenas uma conversão formal; ou seja, uma mudança intelectual de atitude em relação à vida; normalmente acompanhada de emoção e de sentimentos de culpa, mas não de verdadeiro arrependimento e conseqüente renascimento espiritual. Esta é uma das causas desta dicotomia psicológica, que cria no indivíduo a noção de que a vida secular e a vida espiritual são coisas diferentes e precisam ser tratadas de forma diferente.
Essa pessoa passa a pensar mais ou menos da seguinte forma:Deus é maravilhoso, mas quem entende mesmo de minha vida cotidiana é o velho eu, ele já tem o "jeito" para lidar com o dia-a-dia, com as coisas práticas e racionais, pois afinal ele aprendeu vivendo, e que experiência ele tem nisto!
Acredita que a Deus é preciso dedicar apenas as áreas mais nobres de sua vida, como a edificação de seus valores e princípios e a direção de sua vida espiritual. Por que envolvê-lo na mediocridade de seu cotidiano? Deus não precisa ir com ela ao supermercado. Entrega a Ele a direção de sua vida, mas apenas aquelas decisões cruciais, que ela não sabe tomar. Cada coisa em seu lugar: Quando vai para o trabalho, o melhor é deixar Deus em casa, junto de sua Bíblia, pois ora a ele todas as manhãs e pede a sua bênção. Afinal, ela já sabe tomar conta de si mesma!
Além disso, se precisar de sua ajuda, basta pedir e Ele logo virá em seu socorro. Foi ensinada a "fazer a sua parte" para que Deus faça a parte dele; como se Deus não fizesse parte de nosso pensar, de nosso querer e de nosso agir. Afinal, ela não precisa invocar a Deus para resolver aqueles pequenos problemas com seus fornecedores, ou aquele relacionamento difícil com o vizinho, ou aquelas dificuldades financeiras normais de toda família. Não precisamos de Deus para escolher a roupa que vamos vestir, ou a pasta de dentes que vamos usar.
No entanto, vivendo dessa forma ela cria uma vida cheia de altos e baixos, cheia de lacunas, de vazios às vezes; mas diz para si mesma que a vida de todo mundo é assim, nada que não possa ser resolvido com um bom filme, um jogo de cartas, um passeio no shopping, um bom papo com os amigos. Anda triste e apreensiva às vezes, mas quem não anda? Logo chegará o dia do culto na igreja e poderá então renovar as suas forças espirituais. O problema é que às vezes ela chega até a igreja com as suas reservas espirituais tão baixas, que nem mesmo consegue se recuperar.
Vive assim, servindo a dois senhores, sem perceber. Mas o mais grave é que também sem perceber, ela relega Deus ao segundo lugar em sua vida. Embora nominalmente o declare senhor de seus caminhos, quem dirige na prática as sua vida é o velho eu, o velho homem que insiste em viver nela. Existe na verdade uma grande diferença entre entregar efetivamente nossos caminhos ao Senhor, rendendo-nos à sua soberania sobre as nossas vidas; e levar esta vida dúbia, em que honramos a Deus com palavras e louvores, mas não com o nosso coração. Entoa o velho hino: "Vem espírito de Deus! o meu coração é o Teu altar", mas na verdade o altar de Deus no coração dela está vazio.
O nosso sistema de relacionamento humano e espiritual é semelhante aos sistemas audiovisuais de telecomunicação, que utilizam ondas eletromagnéticas para transmitir uma programação a que temos acesso através do rádio e da televisão.
O relacionamento humano se daria; segundo essa analogia, em uma determinada faixa de frequências; enquanto que o relacionamento espiritual se daria em uma outra faixa de freqüências, mais elevada. Em seu relacionamento com o mundo, o cristão híbrido sintoniza com a faixa de frequências do mundo e em seu relacionamento com Deus, utiliza a faixa de frequências espirituais.
O problema é que quando vai para o trabalho, muda a faixa de frequência de sua mente para a faixa do mundo e assim se desliga de Deus. Ao entrar na igreja ou em seu quarto para orar, faz o contrário; isto é, se desliga do mundo e sintoniza apenas com Deus. Isto, porém faz com que desperdice um tempo enorme de sua vida longe daquele que é a própria vida, o nosso Criador e Senhor. O Deus do seu cotidiano se torna assim apenas uma espécie de ícone sagrado, excluído inteiramente de sua vida secular; por quem nutre um temor cerimonial e a quem recorre apenas em suas aflições e anseios.
Mas, na verdade, não é preciso que seja assim e nem deve ser assim. Não faz sentido perder a nossa sintonia com Deus quando desempenhamos atividades seculares; e nem precisamos deixar os nossos problemas seculares do lado de fora da igreja quando ali entramos para orar e cultuar a Deus.
Se verdadeiramente conhecermos a Deus e o amarmos, a ponto de que a sua presença venha a se tornar algo tão vital para nós como o ar que respiramos; então Ele já não será apenas um símbolo, um ser de quem ouvimos falar e a quem devemos adorar. Ele se revelará a nós então como o Criador, o Pai espiritual, o amigo e o eterno amado de nossas almas. Ele estará de tal forma entranhada em nossos corações; que os cultos na igreja, os momentos de oração e estudo; não mais serão momentos de nos encontrarmos com Ele, mas momentos de estar em plena intimidade com Ele; de celebrar a nossa comunhão com Ele; momentos de aprender com Ele e de lhe dar graças por suas dádivas em nossas vidas. Para isto entretanto, é preciso que tenhamos realmente nascido de novo, da água e do Espírito.
O pastor Márcio Valadão, da IBL de Belo Horizonte declarou certa vez, em uma de suas pregações: Ou Deus ocupa o primeiro lugar em sua vida ou Ele não ocupará o segundo. Em vão nos enganamos e julgamos enganar a Deus, crendo estar em comunhão com Ele; quando reservamos a Ele na verdade apenas o segundo lugar em nossas vidas a que chamamos, às vezes cinicamente, "o lugar mais nobre". Deus, entretanto é senhor das coisas espirituais, mas precisa ser senhor também das coisas seculares, dos nossos prazeres, dos nossos negócios, e precisamos nos colocar em sua total dependência, mesmo nas mínimas coisas que fazem parte de nosso cotidiano.
Isto não é negar a nossa própria responsabilidade para com nossas decisões e nossos atos; é apenas o reconhecimento de que Ele é a própria essência de nossas vidas, o nosso fôlego vital, a luz dos nossos olhos, o calor do nosso sangue, assim como é a fonte de nossos sentimentos e anseios mais elevados. É Ele quem opera em nós "tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." (Filipenses 2:13)
Na verdade, até experimentarmos o renascimento espiritual, nós mesmos preferimos, inconscientemente, viver desta maneira dual se não experimentamos uma autêntica conversão espiritual de vida. Viver sob o domínio do eu psicológico tem muitas desvantagens, como os altos e baixos emocionais a que estamos sujeitos; os temores, a angústia e a ansiedade em que nos vemos continuamente mergulhados; a insegurança e o desassossego causados pelas tribulações diárias.
Entretanto, intimamente reconhecemos nesse domínio egocêntrico certas vantagens às quais nos acostumamos; como certas reações automáticas que adotamos, diante de algumas situações que não requerem de nós nenhuma reflexão. Além disso, podemos nos deleitar em nossos pequenos hábitos e vícios, os quais nos transmitem uma sensação de paz e bem-estar. A idéia de confiarmos inteiramente o domínio de nossas vidas a Deus nos parece sem dúvida uma decisão demasiadamente ousada e assustadora. Afinal, isso implicaria em mudar radicalmente o nosso modo de viver.
Além de nos assustar, a idéia de consagrar totalmente as nossas vidas a Deus representa um desafio que muitos de nós não temos a coragem necessária para aceitar. Assim, julgamos não apenas natural, mas prudente, continuarmos dividindo a nossa consciência, como sempre fizemos, deixando "cada coisa em seu devido lugar". Esta é, no entanto uma decisão enganosa, pois se na prática relegamos Deus a um segundo lugar em nossas vidas, não podemos dizer sinceramente como cristãos que estamos em Cristo e que Cristo vive em nós. A atuação de Deus em nossas vidas torna-se também parcial. Nossas orações às vezes são ouvidas, outras vezes não. Nossa fé é vacilante, como também a nossa fidelidade a Ele, pois na verdade servimos a um Deus a quem não amamos realmente.
Para amar alguém é preciso conhecer. Deus nos conhece e por isso nos ama, mas nós não o conhecemos. O livro Cantares de Salomão é um poema que narra o amor de um rei e de sua noiva. Nele, ambos elogiam os encantos um do outro e falam de sua ansiedade em se encontrar. Creio que nosso relacionamento com Deus deveria ser também de tal intensidade.
Quando amamos verdadeiramente, a imagem da pessoa amada não sai de nossa mente e estamos permanentemente em sintonia com ela, o que quer que estejamos fazendo. Aqueles que não nasceram de novo, no entanto, não conhecem a Deus o suficiente para amá-lo desta forma. Na verdade eles o temem mais que o amam, por que não o conhecem. É verdade que Deus se revela a nós de muitas maneiras, mas a melhor maneira de conhecer alguém ainda é pessoalmente. Podemos ir à casa de uma pessoa, sem que ela esteja presente e conhecer um pouco dela, através do que nos falaram a respeito dela, através de seus pertences, através de fotos e de seus escritos. Mas isso não traz a mesma profundidade de conhecimento que um convívio pessoal. Como, no entanto estabelecer esse convívio se somos carne; e Ele é Espírito, se somos sangue; e Ele é luz, se somos impuros; e Ele é santo?
Alguns místicos cristãos consagraram tanto as suas vidas a Deus que conseguiram alcançar um nível de convívio com Ele bastante profundo; algo bastante semelhante a um convívio pessoal. No mundo moderno, porém, estamos envolvidos de tal forma com as atividades seculares, que nos sobra muito pouco tempo para buscar a Deus. Mas para estar em comunhão com Deus não é preciso nos isolar em conventos ou mosteiros; embora seja essencial que nos santifiquemos, ou seja, que vivamos moral, cultural e espiritualmente separados do mundo. Isto significa que para alguns, talvez seja realmente necessário se afastar fisicamente do mundo, ou pelo menos do seu núcleo habitual de convívio, por algum tempo. Por causa da dureza de nossos corações, Deus se revela mais a nós nos momentos de solidão e de dor; do que quando estamos cercados por amigos e familiares, em prosperidade e em paz com o mundo.
Desde o advento de Cristo ao mundo, Jesus é o único caminho através do qual é possível conhecer a Deus a chegar até Ele. Jesus disse que quem o conhecesse conheceria também a Deus (João 14:9). Jesus foi o próprio verbo feito carne, a sua doutrina não era dele, mas daquele que o enviara. Ele dizia que o Pai estava nele e Ele no Pai e que as suas obras eram as obras de Deus. Jesus é, portanto o nosso perfeito mediador entre a carne e o Espírito; entre o divino e o humano, a ponte que nos uniu ao Pai, sobre o abismo antes intransponível do pecado.
Logo, para chegar a Deus é preciso negar a si mesmo, tomar a sua cruz seguir a Jesus. Esta entrega total significa submeter todos os nossos bens, nossos relacionamentos e a nossa própria vontade ao seu senhorio, colocando sobre o seu altar e ao seu dispor tudo aquilo que nos identifica com o mundo.
Significa confiar plenamente em sua sabedoria, em seu amor e em sua justiça, tomar sobre si o seu jugo suave e aprender dele a mansidão e a humildade. Esta total rendição a Cristo; decorrente da plena confiança nele, é essencial para que venhamos a nos ligar à sua videira e consequentemente conhecer ao Pai. Jesus se espantava às vezes ao perceber que seus próprios discípulos, que conviviam com Ele diariamente; demonstravam ainda não conhecê-lo e não confiar plenamente nele, através de sua falta de fé: “Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?” (Marcos 4:40)
Seguir a Jesus significa implica também em sermos seus perfeitos imitadores, ou seja; permitir que o nosso modo de pensar, falar e agir se torne o mais semelhante possível ao dele, em nosso dia-a-dia e em nossos relacionamentos. A nossa mente precisa assim estar sempre em sintonia com a mente de Jesus, para que Ele nos guie em todos os momentos de nossas vidas; e não apenas naqueles mais críticos ou mais significativos, a nosso critério. Ele é o nosso perfeito guia, o nosso Pastor; e ninguém melhor do que Ele pode nos conduzir nesta jornada pelo caminho que leva de volta à casa do Pai, pois Ele viveu no mundo, conhece o mundo e venceu o mundo.
Precisamos, portanto, encontrar uma forma de tornar o nosso convívio diário com Deus o mais profundo possível; para que assim possamos conhecê-lo cada vez mais e amá-lo cada vez mais, de modo a que ele possa realmente ocupar o seu trono em nosso coração. Isso significa buscar a sua presença. Buscar, durante a maior parte possível de nosso tempo, a sua presença, e isso requer uma sede espiritual.
Esta sede de Deus entretanto somente pode brotar de uma atitude de absoluta insatisfação em relação à vida mundana, com sua corrupção, suas injustiças e sua impermanência. É preciso sentir uma profunda e sincera insatisfação com relação à mediocridade de uma vida egocêntrica e o desejo de mudar, de negar a si mesmo e se render à vontade de Deus.
Uma vida realmente vivida na plenitude da presença e da direção de Deus não tem altos e baixos espirituais, lacunas ou vazios; pois Ele aplaina os nossos caminhos e estamos sempre cheios do seu Espírito, o que significa experimentar contínua alegria, segurança e paz interior; independentemente de quaisquer circunstâncias.
Evidentemente, haverá momentos em nossas vidas que serão de dor, de luta, de indignação; pois afinal ainda estamos no mundo e somos humanos. Até mesmo Cristo passou por momentos assim. Entretanto, é muito mais fácil superar estas situações vivendo no real sustento de Deus e servindo a um só senhor do que divididos entre duas vontades.
Deus não irá curar de modo sobrenatural uma simples e casual dor de cabeça, mas irá participar ativamente junto com cada fibra de nosso corpo no restabelecimento do seu equilíbrio biológico. Da mesma forma, Deus certamente não sairá à rua para procurar um emprego para nós, isso cabe a nós fazer. Entretanto, Ele nos guiará certamente nessa busca; de forma a encontrarmos não apenas um emprego, mas exatamente o trabalho que precisamos em um dado momento de nossas vidas, segundo sua infinita sabedoria.
Deus não irá eliminar milagrosamente os vícios que possamos ter quando a Ele entregamos as nossas vidas; pois eles estão profundamente arraigados em nossa vontade própria, mas o próprio renascimento espiritual e o viver continuamente na sua presença tornarão esses vícios não apenas estranhos a nós; mas também repugnantes, de modo que nós mesmos nos afastaremos deles. A luta entre a carne e o espírito continuará; mas se verdadeiramente nascemos de novo, o espírito prevalecerá sobre carne, pois Cristo venceu sobre a cruz a morte e o pecado.
Nascer de novo espiritualmente significa viver inteiramente segundo a vontade de Deus. Significa que Deus passa a ser tão essencial em nossas vidas como o ar que respiramos é essencial ao nosso corpo. Jamais teremos um pensamento, pronunciaremos uma palavra ou tomaremos qualquer decisão irrefletidamente. Teremos a noção clara e plena de cada pensamento, palavra ou ato; o que significa uma assombrosa ampliação de nossa consciência. Ser infiel a Deus ou ignorar a vontade de seu Santo Espírito neste caso implicaria em uma crise psicológica e espiritual sem precedentes, cujas conseqüências nem ao menos ousamos imaginar.
A nossa percepção é ampliada de tal modo que adquirimos plenitude de consciência de todos os nossos atos, a partir do momento em que despertamos pela manhã. Para muitos cristãos, essa nova percepção faz com que até mesmo a água que cai sobre seu corpo no chuveiro, os sons que vêm da rua e cada um de nossos pensamentos adquiram um significado que antes não percebiam, enriquecendo sobremaneira o modo como vivem cada momento do presente. Os atos antes rotineiros de cozinhar, cuidar da casa, lavar a roupa e tomar o ônibus para o trabalho; tornam-se experiências únicas a cada dia, e incomparavelmente mais ricas.
De um modo geral, a comunhão com Deus faz com que em tudo percebemos a glória de Deus manifestada, até mesmo nas pequenas coisas ao nosso redor. Ou a ausência desta glória, pois aumenta também a percepção da corrupção e da miséria espiritual de muitas pessoas com que cruzamos ou com as quais nos relacionamos.
Mas não é apenas a nossa sensibilidade espiritual que se intensifica. Ao nos deleitarmos a cada momento na presença de Deus; nosso coração começa a compartilhar aquilo que está no coração de Deus, em relação a nossas vidas e nas vidas das pessoas que nos cercam. Passamos a conhecer de forma clara e indubitável qual seja a sua perfeita vontade para as nossas vidas, algo que só podíamos conhecer antes através de muita oração e jejum. Ele nos guia então como guiou o seu povo no deserto, como uma nuvem durante o dia e como um fogo etéreo à noite. Deus compartilha conosco também seu sentimento de urgência com relação à sua obra, o seu amor e compaixão pelos seus filhos e a sua indignação com relação ao pecado e à injustiça que campeiam no mundo.
Se efetivamente nascemos de novo, somos definitivamente firmados na rocha que é Cristo, e Ele passa realmente a ocupar o seu trono em nosso coração. Tornamo-nos canais do seu amor e de suas bênçãos. Nossos sonhos se tornam os sonhos de Deus e nosso maior anseio então é viver em sua presença; e lutar pela realização destes sonhos. A nossa mente se torna cada vez mais semelhante à mente de Jesus; com quem passamos a gozar de plena comunhão, comunhão esta que nos dá o seu amor, e que o mundo jamais poderá abalar.
O apóstolo Paulo demonstra maravilhosamente, através de suas cartas, haver alcançado o seu renascimento espiritual e a plena comunhão com Deus; em função da sua total rendição à vontade divina, a ponto de afirmar que nele não mais vivia o seu eu, mas que Cristo vivia nele. Ele afirma em várias passagens que os seus ensinamentos não provinham de seu intelecto, mas do Espírito Santo. Aos Filipenses (4:12), declarou viver independentemente das circunstâncias; mantendo a sua paz e alegria espiritual, quer na carência ou na abundância. Paulo evidentemente não quis dizer com isso que ele havia se tornado como Deus, mas que seu coração agora era segundo o coração de Deus, como o Rei Davi.
Para verdadeiramente conhecer a Deus e vir a amá-lo, é necessário nascer de novo e para nascer de novo é necessário a total rendição do ser humano ao seu criador: corpo e mente; alma e espírito. Paulo era um homem que efetivamente andava segundo o Espírito de Deus e não segundo a carne. Muitos cristãos hoje, no entanto afirmam haverem nascido de novo e que agora andam "em Espírito". Que diferença grotesca entre essa vida dual que é vivida pela maioria dos cristãos e a vida daqueles que realmente experimentaram o renascimento espiritual e andam no Espírito de Deus!
Por quanto tempo alguém pode se dizer cristão sem haver nascido de novo? É difícil determinar a partir de que momento viver uma vida cristã sem ter ainda renascido em Cristo deixa de ser parte de um processo normal e se torna uma deformidade espiritual.
Creio que somente Deus, que conhece a fundo os nossos corações, pode julgar. Entretanto, é fundamental que o cristão tenha plena consciência de sua condição espiritual, e não tente enganar a si mesmo. Jesus é o Bom Pastor, Ele conhece as suas ovelhas e estas também o conhecem. Jesus afirmou que sem nascer de novo é impossível entrar no Reino de Deus (João 3:3).
Nota: Esta é uma revisão do artigo original publicado em 31/08/2008
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Nascer de Novo
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